O Lado Obscuro do Induto de Natal
Todo fim de ano no Brasil, enquanto luzes piscam e mensagens de paz se repetem, o Indulto de Natal expõe um lado que quase ninguém quer encarar.
Ao contrário do "saidão" - aquela saída temporária que muitos presos têm em datas comemorativas e deveriam retornar depois de alguns dias - o indulto é o perdão total da pena, uma escatologia decretada pelo Presidente da República para extinguir definitivamente a pena de alguém não apto ou plenamente ressocializado à convicência em sociedade. Os dados da segurança pública mostram que esse benefício, vendido como gesto humanitário, cobra um preço alto de quem está do lado de fora.
O que mais incomoda é a lógica distorcida. Presos que já cumprem penas baixíssimas recebem redução adicional, como se o sistema fosse rigoroso demais, quando na prática ele já falha em punir e ressocializar. Em muitos estados, os próprios números oficiais apontam que uma parcela significativa dos beneficiados volta a delinquir em pouco tempo. Não é exceção, é padrão conhecido.
Conheço gente que passa o Natal com medo. Portões trancados, ruas vazias, silêncio tenso. A data que deveria simbolizar encontro e afeto vira sinônimo de alerta máximo. É cruel perceber que, em nome de um simbolismo vazio e de uma militância desonesta e cretina, aceita-se aumentar o risco para quem só quer trabalhar, voltar para casa e viver em paz.
Talvez o problema não seja falta de compaixão, mas excesso de desconexão com a realidade.
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